IX Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação - São Paulo - SP - 2008

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Shirley, eu concordo com esta abordagem. Pelo que entendi o nosso gancho será a RECUPERAÇÃO DA INFORMAÇÃO e A FUNÇÃO SOCIAL (de acordo com o que conversamos na quarta). Acho que deviamos usar as fontes originais nos casos das citações da bibliografia da disciplina. No caso do Borko poderiamos pegar a tradução do Saracevic e usar Borko, apud Saracevic. E no caso do Saracevic não usar o apud. Ainda não tive tempo de mandar alguma coisa mas mando na segunda.

Abs.Flávia

[this is good]
Flávia,

Também concordo em citarmos os autores originais no trabalho final, entretanto, no primeiro momento, se a citação foi fruto de um trabalho já publicado pelos membros do grupo, acredito que devemos fazer a citação APUD apenas para sabermos quem está alimentando o quê. No caso, citei com APUD CARVALHÊDO porque esses parágrafos foram resultado ou do meu mestrado, artigos ou do doutorado. Quantos às traduções, eu traduzi para o meu projeto, mas podemos retraduzir.
Abs,
Shirley

Meninas, segue o texto com meus acréscimos:

Grupo: Angelica Alves da Cunha Marques, Patrícia, Flávia Helena de Oliveira, Marli e Shirley Carvalhêdo (COMPLETEM OS SEUS NOMES)

Prezadas, acredito que devemos trabalhar a CI na perspectiva de Saracevic, Malheiro, González de Gomes e o texto do Jardim.

Para Saracevic a Recuperação de Informação é um objeto de estudo da CI, entretanto acredito que não devemos usar sua definição. Então a nossa definição enquanto informação poderia ser a proveniente de Malheiro, INFORMAÇÃO SOCIAL. Nessa direção, retirei alguns apontamento da mina dissertação:

Nossa pesquisa insere-se no âmbito da Ciência da Informação por tratar-se de recuperação da informação. Nesse sentido, podemos citar a definição de Borko, apud Carvalhêdo (2007):

[...]is a discipline that investigates the properties and behavior of information, the forces governing the flow of information, and the means of processing information for optimum acessibility and usability. It is concerned with that body of knowledge relating to the origination, collection, organization, storage, retrieval, interpretation, transmission, transformation, and utilization of information. (BORKO, APUD CARVALHÊDO, 2007, p.37)[1][1][1]

Considerada como um dos ramos da Ciência da Informação, Saracevic, apud Carvalhêdo (2007) define a recuperação da informação:

Information retrieval embraces the intellectual aspects of the description of information and its specification for search, and also whatever systems, techniques or machines that are employed to carry out the operations. (SARACEVIC, APUD CARVALHÊDO, 2007, p.7).[2][2][2]

De acordo com González de Gómez, apud Carvalhêdo (2003), a recuperação da informação, as novas tecnologias de informação e comunicação e a ênfase na informação científica e tecnológica seriam os objetos, participantes de um “sistema”, a incorporarem idéias paradigmáticas.

Para expor este “sistema” e seus paradigmas, a autora propôs o seguinte diagrama: VER O TEXTO DA AUTORA.

Os representantes deste “sistema”, conforme a autora, seriam os arquivos, bibliotecas, museus e centros de documentação e estes seriam denominados “Sistema formal intermediário de recuperação de informação para destacar o caráter de intervenção intencional das ações sistêmicas de informação no contexto de outras práticas sociais”. Dentro deste sistema haveria “um fluxo de informação entre os dois pólos (geradores e usuários), buscando otimizar a gestão da informação (geração, coleta, armazenagem, organização, representação, recuperação e disseminação).” (GONZÁLEZ de GOMEZ, APUD CARVALHÊDO, 2003, p. 4).

González de Gomez vai além. Na concepção de “sistema” institucional formal, está o pressuposto de que, pelo fato de ele ser institucional e, portanto, “sujeito a regras e a processos de legitimação, possuir uma jurisdição para o exercício de sua função e ser identificado por outras agências de informação por suas funções, serviços, produtos e destinatários e também trabalhar com a comunicação formal (registros de conhecimentos, registros de dados de seus próprios instrumentos e rotinas)” MELHOR COLOCAR COM AS NOSSAS PALAVRAS, a visão de Intermediário se daria segundo a autora pela:

iniciativa de um agente ou agência que, ao intervir (através de uma ação intencional) com uma proposta modeladora sobre as formações discursivo-informacionais de outros contextos de ação, converte-se numa mediação produtiva entre os sujeitos participantes em sua execução e a realização efetiva daquela ação, condicionando assim seu desempenho e a obtenção de seus objetivos. (GONZÁLEZ de GOMEZ, APUD CARVALHÊDO, 2003, p. 4).

Nesse sentido, a autora afirma que um dos paradigmas e desafios seria estudar o processo de comunicação presente no “sistema” sob o ponto de vista dos fatores externos - condições culturais, históricas, sociais – que seriam o “universo da ação, do conhecimento e do discurso social” pois estes fatores alterariam a posteriori as “aplicações” ou a “distribuição” dos produtos do conhecimento/informação já construídos e, além disso, estas condições constituem parte das condições iniciais de geração e uso de conhecimento-informação.

DE CERTA FORMA, DEVEMOS PROBLEMATIZAR ESTE "FORMAL" TENDO EM VISTA QUE OS DOCUMENTOS OU INFORMAÇÃO ORGÂNICA NÃO É APENAS PRODUTO DE UMA ATIVIDADE FORMAL. PODEMOS TER ARQUIVOS DE ATIVIDADES INFORMAIS, DE INFORMALIDADE E ILEGAIS, INCLUSIVE.

Ao propor uma reformulação teórico-prática da avaliação em Arquivística, na perspectiva da inserção da disciplina no campo da Ciência da Informação, Silva, apud Carvalhêdo (20003) também irá trabalhar a idéia de Sistema de Informação considerando os fatores externos (contexto). Para o autor:

o arquivo especializado ou centro de arquivo (Arquivos Nacionais, Públicos, Definitivos ou ‘Históricos’) é um sistema pluricelular de INFORMAÇÃO SOCIAL, conjunto estruturado de representações codificadas (símbolos, significantes) socialmente contextualizadas e passíveis de serem registradas em qualquer suporte material (papel, filme, disco magnético, óptico, etc.) e/ou comunicadas em tempos e espaços diferentes (SILVA, APUD CARVALHÊDO, 2003, p.4).

Para tornar mais claras as afirmações de Silva, apud Carvalhêdo (2003, p. 4), faz-se necessário reproduzir aqui parte do diagrama por ele proposto.

Nessa perspectiva, ao analisar o campo científico da Arquivística no âmbito da Ciência da Informação, Silva et al (1999), defendem uma “condição interdisciplinar” da disciplina (1999, p. 158), analisada por Marques (2007, p. 77-80):

Concebida a informação como objecto impreciso, as disciplinas científicas correlativas, de que ressaltam, numa primeira linha, a Biblioteconomia e a Arquivística, são obrigadas a convocar um intercâmbio metodológico com outras ciências sociais, especialmente com a Sociologia e a História. Gera-se, desta forma, uma multi e interdisciplinaridade que se estende e supera num sentido claramente transdisciplinar, confinado ao campo específico da informação social e fundado, sobretudo, na interacção das práticas e das teorias biblioteconômicas e arquivísticas, agregando-se-lhe contributos procedentes da Informática, das disciplinas ligadas à Comunicação Social e às Ciências Sociais (SILVA et al, 1999, p. 36).

Os autores apresentam um diagrama do campo científico da Arquivística (SILVA et al, 1999, p. 42), aqui reproduzido:

Figura n. 1: Diagrama do campo científico da Arquivística

Fonte: Silva et al, 1999, p. 42.

A exemplo desse diagrama, Silva e Ribeiro (2002, p. 80) insistem no compartilhamento, pela Arquivística e Biblioteconomia, de espaços transdisciplinares no âmbito da Ciência da Informação, ao apresentarem o diagrama do campo da Ciência da Informação (reproduzido a seguir).

Figura n. 2: Diagrama do campo da Ciência da Informação

Fonte: Silva e Ribeiro, 2002, p. 80.

No entanto, nessa segunda obra, os autores rejeitam o uso e o abuso do conceito de interdisciplinaridade para caracterizar esse campo científico, uma vez que, na maioria das vezes, segundo eles, esse conceito é utilizado como “uma ‘miscelânea’ de perspectivas e de métodos de procedência diversa e de articulação inexistente, logo caótica” (SILVA; RIBEIRO, 2002, p. 79).

Assim, tendo em vista as necessidades de uso da informação do mundo contemporâneo, numa abordagem sistêmica, eles propõem o

deslocamento de um cenário de interdisciplinaridade para outro, mais profundo e radical, de transdisciplinaridade, no qual a Arquivística é convocada para construir uma Ciência da Informação unitária, envolvendo-se e misturando-se e até fundindo-se com a Biblioteconomia, a Documentação e os Sistemas Tecnológicos de Informação, de forma que a Ciência da Informação, sem perder sua interessante vocação interdisciplinar no campo das Ciências Sociais, consiga afirmar-se teórica e, academicamente, como uma ciência com identidade própria, dentro do paradigma das ciências pós-modernas (MASSON, 2006, p. 88-89)[3].

Para Silva (2002),

o Arquivo, a Biblioteca, o Centro/Serviço de Documentação Científica, o Centro de Memória e o Sistema Tecnológico de Informação (software aplicado à gestão da informação nas Organizações) adquirem o estatuto de epifenómenos, significando este conceito que o “continente” depende e não pode sobrepor-se ao conteúdo: do Arquivo/Serviço ao STI há um mesmo e fundamental denominador comum que é a informação, objecto de estudo e de trabalho de arquivistas, de bibliotecários e documentalistas e de engenheiros de informática de gestão. As diferenças que os podem individualizar são apenas de carácter profissional, ou seja, de certas competências/destrezas que uns têm e outros dispensam, uns possuem mais desenvolvidas e outros menos. Mas a formação científica de base, o corpus teórico-prático modelador do seu modo e tipo de conhecimento racional e sistemático (científico) tende a ser idêntica (SILVA, 2002, p. 590).

Nessa perspectiva, o autor pontua: “Se aceitarmos a informação, humana e social, como fenômeno e processo, a Arquivística, a Biblioteconomia e a Documentação fazem parte integrante de um corpus científico unificado pelo mesmo objecto” (SILVA, 2002, p. 590), ou seja, “Três ramos específicos de aplicação teórico-prática justificados por uma concepção sistémica do conhecimento informacional e congregados em uma unidade científica orientada para um objecto preciso” (SILVA, 2002, p. 595).

Esse posicionamento se assenta no deslocamento da noção estática de “documento”, como conceito operatório e como objeto de estudo, para o enfoque na “informação”, que marca “a entrada dos arquivos e da Arquivística na chamada era pós-custodial e científica” (MASSON, 2006, p. 99). Assim, emergem “novas preocupações com a cientificidade da disciplina arquivística” demonstrando “o caráter milenar dos seus fundamentos, que têm sido a base da teoria e das práticas aplicadas nos vários países” (SILVA et al, 1999, p. 192).

Embora o “paradigma historicista” (SILVA, 2002, p. 577) ainda perpasse o estatuto epistemológico da Arquivística, “Em conseqüência das mudanças técnico-científicas e culturais, os princípios e teorias fundamentais da Arquivística, propostos, originariamente, para atender às necessidades dos arquivos históricos, passam a ser questionáveis” (MASSON, 2006, p. 99).

Para os estudiosos canadenses Rousseau e Couture,

A Arquivística situa-se no cruzamento de novos contextos culturais, dos novos modos de gestão tal como das novas tecnologias. Ela está na confluência de várias disciplinas: informática, ciências da informação, história, lingüística, arqueologia, etnologia, etc. Ao serviço de algumas delas, ela tem por obrigação servir-se das outras, a fim de assegurar a evolução e o seu desenvolvimento (ROUSSEAU; COUTURE, 1998, p. 55).

Esses autores ainda ponderam que:

É participando na resolução dos problemas ligados à gestão da informação nos organismos que a arquivística encontra a sua nova vocação. Para corresponder de forma adequada ao desafio, a arquivística tem de definir-se em função de uma abordagem integrada e fazer escolhas estratégicas quanto à sua organização interna, às suas alianças e à sua renovação (formação e investigação). Dependerá destas escolhas estratégicas que a arquivística caminhe para um êxito ou para um fracasso (ROUSSEAU; COUTURE, p. 69).

(Acho que aqui podemos expor nossas críticas quanto aos modelos tradicionais da Arquivística e os desafios enfrentados pela disciplina, inclusive sobre as suas relações com a CI)

É importante salientar que a inserção da Arquivística no campo científico da Ciência da Informação só ocorre pela via dos arquivistas e não pelos teóricos da Ciência da Informação. (SILVA, apud COSTA , 2002, p. 56).

Exemplos dessa postura podem ser observados na pesquisa de Marques (2007), que mapea a opinião de alguns estudiosos da CI acerca das relações entre esta e a Arquivística. O mais radical deles é Le Coadic, para quem a Arquivística é uma:

disciplina auxiliar da história, preocupa-se com a preservação dos documentos que resultam da atividade de uma instituição ou de uma pessoa física ou jurídica. Os arquivos não passam de documentos conservados, enquanto as bibliotecas são constituídas de documentos por elas reunidos (LE COADIC, 1996, p. 14, grifo nosso).

Jardim e Fonseca afirmam que o ponto comum entre a Arquivística e a Ciência da Informação é a informação registrada (1995, p. 41). No entanto, considerando seus objetos, tipos de informação, categorias de usuários e métodos, eles apontam que há uma “débil interação entre ambas as disciplinas” (JARDIM; FONSECA, 1995, p. 47).

Apesar da Arquivística e da Ciência da Informação partilharem do mesmo domínio de estudos – a informação – os níveis de interação que apresentam são bastante precários. Ainda que a informação seja contemplada por ambas as disciplinas a partir das suas diferentes propriedades e especificidades quanto à produção, uso e disseminação, o território disponível para o intercâmbio teórico e prático mostra-se extremamente vasto (JARDIM; FONSECA, 1995, p. 48).

Assim, para esse estudiosos, as relações entre as duas áreas não são claras, tampouco interdisciplinares e estão em vias de se tornarem pluridisciplinares (JARDIM; FONSECA, 1995, p. 49).

Em outro artigo, esses mesmos autores recorrem a Deschatelet, que reconhece a Ciência da Informação “como uma área em gestação constituída por várias ciências da informação como, por exemplo, a Arquivística, a Biblioteconomia, a Informática, o Jornalismo e a Comunicação, as quais têm como objeto de pesquisa imediatos a transferência da informação” (DESCHATELET[4], 1990, apud JARDIM; FONSECA, 2000, grifo do autor).

Em sua tese, Fonseca afirma que as relações interdisciplinares entre as duas áreas ainda não fazem parte da nossa realidade, pois se verifica uma pequena interseção entre a Ciência da Informação e a Arquivística (FONSECA, 2004, p. 120). No entanto, em suas considerações finais, ela aponta o fortalecimento das relações de interdisciplinaridade entre as duas disciplinas no Brasil, com uma “homogeneidade com que dissertações e teses são acolhidas em diferentes programas de pós-graduação, que aponta para um movimento receptivo que ultrapassa as esferas conjunturais” (FONSECA, 2004, p.161).

Silva (1996, p. 7), a partir de Saracevic (1991)[5] e de Jardim e Fonseca (1995)[6], enumera critérios de comparação entre a Arquivística e a Ciência da Informação. Baseada nesses critérios – definição, princípios, áreas de concentração e de interesse e objeto de estudo – e em parâmetros de interação e de relação interdisciplinar – modalidade de interação e tipo de relação disciplinar –, ela não constata “evidências fortes de uma relação significativa entre as duas disciplinas, exceto pelo papel social dos arquivos e pela função também social da informação” (SILVA, 1996, p. 8). Nesse sentido, a autora pontua que:

A condição de interdisciplinaridade é mais forte por parte da Ciência da Informação, quase inexistindo quando nos aproximando da Arquivística, embora estudiosos da primeira citem a Arquivística como um campo afim ou como uma das Ciências da Informação. Revela-se, desta maneira, uma proximidade entre as superfícies, mas sem fronteiras comuns, até o momento (SILVA, 1996, p. 9).

Já Mariz, na mesma perspectiva de Silva et al, defende o enfoque sistêmico como um ponto de convergência entre essas áreas, alegando que “Os sistemas de informação são contemplados tanto pela Arquivística – para documentos que possuam relação orgânica – quanto pela CI – para informações de uma forma geral” (MARIZ, 2004, p. 35).

A fim de ilustrar os vínculos entre as duas áreas, Gagnon-Arguin recorre à concepção da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), quanto às relações entre as Ciências da Informação, a Biblioteconomia e a Arquivística, segundo a qual, os três domínios possuem o mesmo objeto, isto é, a informação registrada num suporte, embora de forma distinta.

Tanto os serviços de informação da biblioteconomia como da arquivística demandam o estudo científico do comportamento humano quanto à sua maneira de pesquisar a informação, de tratá-la, de organizá-la e de disponibilizá-la aos usuários. Essa afirmação de um objeto comum, o estudo da informação como fenômeno, está na base comum de uma harmonização das formações e valoriza a convergência das ciências documentais (LAJEUNESSE, 1986[7], apud GAGNON-ARGUIN, 1992, p. 210, tradução nossa).

E essa inserção da Arquivística na Ciência da Informação é decorrente da percepção de que o quadro conceitual da Arquivística vigente desde a Revolução Francesa (1789) vem apresentando sinais de crise devido a questões originárias na nova era denominada “pós-custodial”. Tais desafios se colocam principalmente pela emergência das tecnologias de informação e de comunicação e na conseqüente geração dos documentos eletrônicos e das redes internacionais de comunicação.

A constatação dessa crise insere os arquivistas no exercício de compreensão do fenômeno da informação social. (RIBEIRO, apud COSTA, 2002, p. 100-102).

Para demonstrar como se delineiam essas discussões, é preciso recorrer a uma breve história da Arquivística e seu quadro conceitual configurado a partir da Revolução Francesa.

A Revolução Francesa, século XVIII, representa um marco para a Arquivística contemporânea. A fundação dos Archives Nationales, em 1790, explicita os fundamentos da organização do Estado nacionalista e patrimonialista, pela preservação do patrimônio documental pertencente ao governo.

O modelo de arquivo nacional moderno está alicerçado nas medidas pós-revolucionárias francesas que, resumidamente, promoveram a criação da administração sistêmica dos arquivos, sob a coordenação da instituição arquivística nacional; o direito de acesso público aos arquivos – pela garantia de defesa ao povo de seus interesses nas relações de propriedade firmadas no antigo regime feudal; e o reconhecimento da responsabilidade do Estado pela conservação dos seus documentos para a construção da história nacional.

A criação do Conselho Internacional de Arquivos no âmbito da Unesco, em 1950, é resultado da necessidade de coordenação internacional clamada pelos profissionais para dar um rumo uniforme às políticas arquivísticas, bem como promover a normalização de técnicas e métodos. (SILVA, apud COSTA, 2002).

A disciplina Arquivística construída nesse cenário fundamenta-se no conceito de “fundo” – definido pelo conjunto de documentos produzidos por uma mesma entidade (organização, pessoa ou família), e na “teoria das três idades”. A “teoria das três idades”, ou ciclo vital dos documentos, identifica as sucessivas fases por que passam os documentos de um arquivo, desde a produção à guarda permanente ou eliminação. Essas fases ou idades são identificadas como corrente, intermediária e permanente e são determinadas pela freqüência de uso pelas entidades produtoras, e pela determinação de valores primário e secundário[8][3].

Os princípios teóricos norteadores da arquivística são o “princípio da proveniência” e o de “respeito à ordem original”. Determinam que um acervo produzido por entidade coletiva, pessoa ou família não deve ser misturado aos outros de outras entidades produtoras e sugere a manutenção da organização dada pelo produtor.

É esse modelo histórico-tecnicista que hoje está sendo questionado. Ribeiro (apud COSTA, p. 102-103), a exemplo de de Malheiro et al (2003), ao conceber a independência da Arquivística em relação à História e, conseqüentemente vislumbrar a emancipação daquela disciplina, o desconstrói nas seguintes conclusões:

a) os arquivos históricos nacionais não conseguiram estabelecer uma articulação sistêmica com as entidades produtoras, porque, equivocadamente, se consolidaram na acumulação de fundos de interesse patrimonial, sem representar verdadeiramente a trajetória do Estado;

b) uma política arquivística coordenada por esses arquivos institucionalizados não favorece a busca da cientificidade, ao contrário, gera normas e procedimentos baseados no empirismo;

c) a fundamentação teórica baseada no conceito de fundo desvenda um caráter meramente operativo e não uma lei; enquanto a “teoria das três idades” é questionada pela proposta da “arquivística integrada”, que trabalha com o contexto da produção sem o rompimento do ciclo documental;

d) os princípios teóricos “da proveniência” e da “ordem original” e a supervalorização de técnicas, como a descrição arquivística e ênfase na normalização não dão conta dos novos desafios;

f) adoção do documento como objeto de estudo da disciplina, numa perspectiva patrimonialista e historicista, impede a possibilidade de análise da informação de modo independente do suporte.

Algumas iniciativas têm demonstrado a revisão da Arquivística pela apresentação de uma perspectiva em busca de um conhecimento científico e uma aproximação à Ciência da Informação. RIBEIRO (idem, p. 104) coloca esse esforço na seguinte ordem:

A tendência para conceber o arquivo como “sistema”, fundamentada por alguns autores na própria Teoria Geral de Sistemas; a visão integrada das várias idades do arquivo, que anula a ruptura conceptual entre records e archives, formulada na década de 40 no mundo anglo-saxónico e alargada a muitos países por força da “gestão de documentos”, que ganhou uma espécie de autonomia como área de trabalho específica; a progressiva valorização da organicidade do arquivo que, apesar do tão apregoado “princípio da proveniência”, tem sido grandemente “abafada” pela tendência tecnicista de reduzir a actividade do arquivista a procedimentos destinados essencialmente a viabilizar o acesso; a tónica na análise funcional, método defendido por alguns autores como ferramenta indispensável a conhecimento da produção e do fluxo da informação no seio das organizações e, concomitantemente, do arquivo; o reconhecimento da informação social como objecto de estudo, apesar da sua insuficiente definição e caracterização enquanto fenômeno cognoscível e da perspectiva reducionista que identifica com “documento”.

Nessa perspectiva, Ribeiro (idem, p. 107) propõe que o novo paradigma para a Arquivística deve se caracterizar pela teoria sistêmica, no qual o arquivo “é visto como um sistema (semi-)fechado de informação social” onde a estrutura, a função e a memória são definidoras dos tipos possíveis de arquivos.

O paradigma emergente, conforme proposto por Ribeiro (idem, p. 109), caracteriza-se, portanto pelos seguintes componentes:

a) a substituição do objeto vigente, a informação registrada em suporte físico, pela “informação social” considerada “como um fenômeno com atributos e propriedades passíveis e cognoscibilidade”;

b) utilização da teoria sistêmica, considerando o arquivo um sistema semi-fechado e dependente da configuração dos seus componentes estrutura, função e memória;

c) adoção de um método de investigação “com vista à construção científica do conhecimento arquivístico”.

Algumas considerações finais

Considerando que a informação é objeto de interesse para cientistas da informação e para arquivistas (dentre tantos outros profissionais que também lidam com a informação), esse interesse intensifica-se quando centrando na informação documental, ou seja, na preocupação acerca da criação de memórias (SILVA et al, 2003, p. 27) ou mesmo da recuperação da informação, preocupação apontada por inúmeros estudiosos da Ciência da Informação – Belkin (1978), Saracevic (1996), Capurro (2003), dentre outros. Guardadas as suas especificidades, as tarefas de adquirir/produzir, armazenar, tratar, organizar e recuperar a informação é, portanto, comum a esses profissionais.

Como o objeto da CI é “a informação como um fenômeno inscrito na realidade humana e social” (SILVA et al, 2003, p. 31), esse objeto coincide com o da Arquivística, o qual se refere ao conjunto dos documentos produzidos e acumulados ao longo das atividades organizacionais ou individuais (ou de famílias), isto é, das atividades do homem em sociedade. Nesse sentido, os sistemas (semi)fechados de informação social são objeto específico da Arquivística (SILVA et al, 2003, p. 38). E, assim, a Arquivística é concebida como uma ciência da informação social Arquivística: “[...] o dispositivo metodológico da Arquivística, em última instância, tem de visar de forma problematizante as leis ou princípios intrínsecos à dinâmica da informação social, estruturada em sistemas (semi-)fechados” (SILVA et al, 2003, p. 211).

Fonte consultada:

RIBEIRO, Fernanda. Da arquivística técnica a arquivística científica: a mudança de paradigma. Revista da Faculdade e Letras – Ciências e Técnicas do Patrimônio, I série, v. 1, p. 97-110. Disponível em: < http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/artigo3511.pdf >. Acesso em 27/04/08.


[1][1][1] É uma disciplina que investiga as propriedades e comportamento da informação, as forças que governam o fluxo informacional e os meios de processamento da informação com o intuito de tornar a acessibilidade e a usabilidade as melhores possíveis. Relaciona-se com o corpo de conhecimento referente à origem, coleção, organização, armazenamento, recuperação, interpretação, transmissão, transformação e utilização da informação. (Tradução nossa).

[2][2][2] A recuperação da informação envolve, tanto os aspectos intelectuais da descrição da informação e suas especificações de pesquisa, quanto os sistemas, técnicas ou máquinas empregadas para realizar a operação de recuperação. (Tradução nossa).

[3] Sílvia Mendes Masson (2006) discorre sobre A Arquivística sob o prisma de uma Ciência da Informação, título do seu texto, em relação à proposta de Silva e Ribeiro (2002).

[4] DESCHATELET, Gilles. L’Archivistique et la Bibliotheconomie: dex disciplines soeurs dans l’arbre genealogique des sciences de l’information. In: GIRA. La place de l’archivistique dans la gestion de l’informations: perspectives de recherches. Montreal: Ministaire des Affaires Culturelles/Archives Nationales du Québec, 1990.

[5] SARACEVIC, Tefko. Information Science: origin, evolution and relations. International Conference held for Celebration of 20th Anniversary of the Departament of Information Studies. Finland: University of Tampere, Aug. 1991.

[6] JARDIM, José Maria; FONSECA, Maria Odila. As relações entre a Arquivística e a Ciência da Informação. INFORMARE, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 41-50, jan./jun. 1995.

[7] LAJEUNESSE, Marcel. L’archivistique: une science de l’information à la recherche d’um milieu de formation. Archives, v. 18, n. 3, dec/1986, p. 35-47.

[8][3] O valor primário é atribuído ao documento em função do interesse que possa ter para o produtor, considerando sua utilidade para fins administrativos, legais e fiscais. O secundário é atribuído ao documento em função da importância tanto para o produtor quanto para outros usuários, pela utilidade que possa oferecer para fins diferentes daqueles para os quais foi criado, tais como científico, testemunho, prova[8][3].

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